sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Gaita Milagrosa - História Tradicional

Aqui fica mais uma versão minha de uma história tradicional. Espero que gostem

A Gaita Milagrosa


            Numa aldeia perdida no meio das serranias vivia um homem que tinha uma gaita. Mas não era uma gaita qualquer. Acontece que, quando o homem levava a gaita à boca e fazia soar os acordes de uma música, as pessoas começavam a dançar no meio da rua. Era uma alegria sempre que o tocador soltava sons da sua gaita. Todos dançavam e andavam felizes.
            Certo dia, o tocador estava sentado à porta de sua casa. Na rua, passava um sujeito com um burro carregado de loiça que andava a vender. O tocador começou a tocar e logo o dono do burro e o próprio animal começaram a bailar. O vendedor dançou, dançou e o animal também cabriolava com as patas traseiras. O pior é que, com os saltos do burro, toda a loiça caiu no chão e partiu-se em mil bocados.
- Pára! Pára! – Gritava o velho não parando de dançar!
            Mas o tocador estava tão distraído a tocar a sua música que nem dava pelo que se estava a passar.

                                             ( ilustração de Maria Keil)

- Pára! Pára! – Tornou o velho a gritar, enquanto dançava acompanhado pelo burro.
            Foi então que o tocador reparou no que estava a acontecer e parou de tocar.
- O que tu fizeste! Malvado! Terás de me pagar toda a loiça partida!
- Mas eu…só toquei…! Como posso ser culpado de vossa excelência dançar mais o seu burro…? Além disso não tenho dinheiro para pagar.
- Ah, sim!? Não pagas? Vais ver o que te acontece.

            E agarrando o burro pelas rédeas desandou dali indo direitinho ao juiz fazer queixa do tocador. Este foi chamado à sua presença.
            Quando o tocador chegou levando a gaita dentro do bolso das calças, o juiz disse-lhe:
- És acusado de ter partido toda a loiça deste homem.
- Eu, senhor doutor juiz!? Eu não sou culpado. Toquei a minha gaita e este senhor e o burro puseram-se a dançar… Não fui eu.
- Se não tocasses essa maldita gaita eu não dançaria nem o meu burro. A gaita é milagrosa, senhor doutor juiz – respondeu o vendedor exasperado.
- Como é que uma gaita pode ser milagrosa? – Perguntou o juiz, sorrindo.
- É verdade senhor doutor… - acrescentou o velho – Pode crer naquilo que lhe digo. Este homem tem uma gaita milagrosa… Foi por causa da sua gaita que toda a minha loiça caiu no chão e se partiu em bocadinhos.
            O juiz pensou que o vendedor não estava bom da cabeça. Mas enfim! Tinha de encontrar uma prova para resolver a questão.
- Pois bem! – Disse o juiz, voltando-se para o tocador – Toca um pouco para eu ouvir.
            O gaiteiro tirou a gaita do bolso e levando-a aos lábios começou a tocar. Logo o velho, que estava encostado a uma parece começou a dançar, rodopiando sobre si. O juiz que se preparava para fumar um cigarro, levantou-se da secretária e bailou muito animado.
            A mãe do juiz que há muitos anos estava entrevada numa cama, num quarto que dava para o escritório, apareceu de braços ao alto e a bailar de contente. Estava tão feliz que até cantava:

Vá de folia,
Vá de folia
Que há sete anos
Não me mexia.

            O escritório do juiz tornou-se num animado salão de baile.
            Passados alguns minutos, o juiz estava tão cansado, que pediu ao tocador para parar. O homem obedeceu. Tanto o vendedor como o juiz e a mãe estavam cansados e suavam com abundância.
- Podes ir-te embora. – Disse o juiz para o tocador, limpando o suor da testa. – Não te posso culpar pois curaste a minha mãe que há muitos anos não se podia mexer. Estás absolvido!
            O tocador saiu do escritório do juiz muito satisfeito e era tão grande a sua alegria que foi para a praça da aldeia tocar. Toda a gente saiu das suas casas e bailou até de madrugada.
            O velho vendedor é que não ficou muito satisfeito, mas resignou-se. Foi dali comprar mais loiça para vender prometendo a si próprio nunca mais passar perto daquela aldeia.


Eugénia Edviges

Um grande xi-coração


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