quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Histórias da Rua do Pinheiro - I Capítulo



As lindas ilustrações são do Zé Lima, como devem calcular!

HISTÓRIAS DA RUA DO PINHEIRO - I CAPÍTULO
A minha rua é uma rua igual a tantas outras. Casinhas baixas, pintadas de branco. Portas e janelas de madeira, com cortinas de renda. Os passeios são de calçada e atapetados de vasos floridos. Vasos de barro emoldurados por gerânios, cravos e sardinheiras, muitas sardinheiras das mais diversas cores. Quando chega a Primavera logo a minha rua se enche de colorido. E as vizinhas aproveitam o ensejo de as regar para mais um dedo de conversa com alguém que passe na altura.
É uma rua imensa, cortada por duas ruelas, das quais não me lembro o nome. Começa na Igreja do Espírito Santo, de fachada imponente, adornada com um nicho onde se encontra a imagem de Nossa Senhora do Espírito Santo. E nas imediações da Igreja temos o Café Espírito Santo, o Lar de Idosos Espírito Santo e a sapataria Espírito Santo. Basta dizer que só não fui baptizada com o pomposo nome de Teresa Espírito Santo porque a minha madrinha, que não é nada dada a religiões, não o permitiu.
Pois, como já disse, a minha rua é imensa e vai desaguar num largo situado num morro, sobranceiro ao rio. Chama-se Largo do Calvário, porque é aí que se situa o Cruzeiro, tão antigo, tão antigo que para calcular a sua idade terei de somar os anos da minha avó materna, da minha avó paterna, do meu avô materno e do meu bisavô paterno que, por enquanto, ainda é vivo. Mesmo assim não chega.
Junto ao Cruzeiro fica o Jardim do Calvário, por sinal muito agradável. De canteiros rodeados por sebes e bancos de madeira, pintados de verde. Ao centro, uma grande palmeira dá sombra nas tardes quentes de Verão. Tem um tronco tão grosso que eu e a gorducha da Ana não o conseguimos rodear. Fica sempre cerca de meio metro para completar. E lá vem o Zé Luís, mais conhecido pelo Lingrinhas. Magro, mas suficiente para com ele rodearmos completamente o tronco da árvore.
O jardim é rematado por um gradeamento em ferro. Entre o gradeamento e as sebes foram colocados bancos de madeira. Assim, é certo e sabido que os casais de namorados se aproveitam desses esconderijos para admirarem o rio que corre em baixo e os campos ao redor. Está claro que há muitos beijinhos e abraços e pregar partidas aos apaixonados são as nossas brincadeiras preferidas. Verdade seja dita que temos muita imaginação! Lembro-me de certa vez em que tivemos a ideia brilhante - ou por outra, eu é que tive a ideia – de pintar os bancos. Por azar, quem foi namorar nessa noite para o jardim, foi o filho do senhor Jaime. Pois é! Vocês podem pensar que não poderia haver problema nenhum. Só que o senhor Jaime é simplesmente o jardineiro e não é um jardineiro qualquer! Para ele o jardim é a menina dos seus olhos e ai de quem lhe faça algum mal! Quando apanhou a senhora Alzira a apanhar uma rosa para a jarra do quarto, foi o bom e o bonito! A pobre mulher, de tanto o ouvir falar, achou por bem dar-lhe um vaso de sardinheiras roxas, que fora buscar a casa.
- Tome lá e plante-a no jardim! Tanto alarido por causa duma simples flor!
- Não é uma simples flor! – Respondeu ele rancoroso – É uma flor do jardim! E o jardim é de todos, não é só teu! Arre, que é demais! Que seja a última vez que eu veja uma coisa destas. Para a próxima vais direitinha à Câmara pagar uma multa que nem o ordenado do mês te vai chegar!
Como já devem ter calculado o senhor Jaime tem muito mau feitio. O problema não foi apenas o facto de termos pintado o banco, não senhor! Até porque os bancos são verdes e tivemos o cuidado de trazer da arrecadação do pai do Eduardo, que é pintor, uma lata de tinta verde. Só que o verde não era bem o verde dos bancos. Era um tudo-nada a atirar para o cinzento. E tanto as calças de ganga do Vítor, como a saia azul escura da namorada ficaram com riscas acinzentadas no traseiro. Eu até acho que o cinzento não ficava nada mal!
Mas a desgraça não acabou aqui. Ora, quem teve a culpa do Lingrinhas se ter oferecido para levar a lata de tinta, por azar ter tropeçado no pé do banco e estatelar-se no meio dos amores-perfeitos? Ninguém! E quem teve a culpa da lata de tinta se ter despejado em cima da relva que rodeava o canteiro dos amores-perfeitos? Ninguém! Até porque quisemos todos ajudar o Lingrinhas a levantar-se, por sermos bons colegas, e não sei o que aconteceu mas, ou fosse por causa da tinta ou por causa do Pinotes que se meteu entre nós – O Pinotes ainda não o apresentei, mas é o cão da Vera – a realidade é que caímos todos com grande alarido. Por esse motivo, não foram só os amores-perfeitos a ficarem machucados e de cor acinzentada. Mas também as dálias e as rosas de Santa Teresinha! Olhem, nem Santa Teresinha nos acudiu! Durante vários dias não fomos ao jardim. De tal forma o senhor Jaime vociferava quando nos via, erguendo a pequena enxada acima da cabeça, que nos obrigava a retroceder amedrontados.
Quem não escapou foi a pequenina Rosa. É a filha mais nova, dos seis, que tem o senhor Jaime. Coitada! Para castigo não brincou na rua durante uma semana! Foi uma injustiça! À noite ouvíamos a Rosa a gritar dentro de casa:
- Eu “quelo” “il” “blincal”...! Eu “quelo” “il” à “lua”...!
Adivinharam! A Rosa não sabe soletrar os “Rs”.
Voltando a falar da minha rua: é nela que nos juntamos para brincar. Quando escurece, lá estamos todos para fazermos “trinta por uma linha” – este é um termo da minha avó quando faço coisas que não lembra ao diabo. E o mais interessante é que temos assistência! As vizinhas, quando as noites são amenas, sentam-se à porta a conversar. Umas fazem renda à luz da iluminação pública, outras descascam legumes para o almoço do dia seguinte. E têm-nos ensinado muitas brincadeiras do tempo da sua meninice. Hei-de ensinar-vos algumas.
As noites na minha rua são mesmo fixes!
Com tudo isto ainda não disse o nome da minha rua. Chama-se Rua do Pinheiro. Sim, Rua do Pinheiro! Ninguém sabe porquê. Como já disse, a minha rua é uma rua igual a tantas outras: portas, janelas, passeios calcetados. De verdura, apenas as sardinheiras. No Jardim do Calvário não existe nenhum pinheiro e os campos que se avistam daí são muito verdes na verdade, mas pinheiros não há nenhuns. Apenas searas ondulantes. O rio é marginado por freixos que beijam as suas margens. E a Cruz do Calvário parece gritar por ver aquele verde maravilhoso a seus pés! A minha veia poética está a manifestar-se...
Bem, voltando atrás: não percebemos porque é que a nossa rua se chama Rua do Pinheiro. Grande parte das ruas da vila tem mudado de nome. A Rua do Lagar passou a ter nome de um escritor qualquer, que nasceu não se sabe aonde; a Rua de Trás deixou de ser de “Trás” para ser Rua Luís de Camões. Como se ele não fosse já padrinho de imensas ruas, largos e avenidas por esse país fora! E o Largo da Fonte, com o seu característico fontanário, que dizem ser do século passado, passou a ser Largo João de Deus. Só a nossa rua, por qualquer motivo, nunca mudou de nome. Rua do Pinheiro! Até é um nome bonito, temos de concordar! Só é pena, realmente, não ter pinheiro nenhum!
A minha avó chama-me da cozinha. Diz que são horas de ir para a cama. Pronto! Como já está escuro, tenho de ir para a cama! Dizem que na Noruega – parece que é esse o país – durante uns certos meses do ano há sol à meia-noite. É mesmo fixe! O que dirão as avós das crianças norueguesas para as obrigarem a ir dormir? Aposto que nada! Seria preciso descaramento obrigar uma criança a deitar-se com os raios de sol a baterem na janela. Mas, pensando bem... se assim não for devem andar a dormir em pé...

                                                                                 Eugénia Edviges

Um grande XI-    

1 comentário:

  1. Adorei esta história. Faz-me lembrar os meus tempos de criança. É bom recordar

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