terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Sapo Malaquias

O Sapo Malaquias está publicado no Calaméo, mas aqui fica registado para poderem ler a história de uma outra forma.


O Sapo Malaquias 
       Na Lagoa Azul viviam muitos sapos e sapinhos. O coaxar de todos eles ecoava pela Lagoa Azul. A Lagoa era um paraíso para os sapinhos que por ali saltitavam de pedra em pedra e de nenúfar em nenúfar. O sítio era maravilhoso. Todos se sentiam felizes por terem um recanto apropriado para as suas brincadeiras.
     Entre os sapos distinguia-se um diferente dos outros. Mostrava-se sempre muito pensativo e muito triste. Tinha sido um sapo muito brincalhão, sempre a inventar jogos onde todos pudessem participar. Repartia com os companheiros os insectos mais apetitosos e havia muita alegria quando estavam ao seu lado. Nessas alturas, o sapo Malaquias sentia-se o rei da Lagoa Azul. 
Mas algo acontecera. Malaquias mudara muito. Deixou de fazer parte das brincadeiras. Isolava-se. Deixou de prestar atenção a tudo o que o rodeava.
- Malaquias, vem para a água… - convidavam.
- Malaquias, anda fazer uma corrida nas pedras até ao nenúfar…
-Malaquias, vamos jogar ao “engole insectos”…!
     Malaquias não respondia. Ficava na margem da Lagoa, entre os juncos, a suspirar.
   Quando era pequeno a mãe lera-lhe a história do Príncipe Sapo. E no fim dissera:
- Os sapos são muito conhecidos, meu filho. Como vês, são falados nos livros de histórias. Toda a gente os conhece. Devias orgulhar-te de teres nascido sapo.
 Mas Malaquias sempre ouvira certas frases que o magoavam muito, como por exemplo “os sapos são tão feios”, “feio como um sapo”, “cara de sapo”, “bicho repelente” e por aí fora. Era demais! Por isso mesmo, Malaquias queria ser como o sapo da história que a mãe contara. Queria receber um beijo de uma princesa muito bonita e transformar-se num esbelto príncipe de cabelo loiro.
E se conseguisse ser um príncipe haveria de mudar de nome. Escolheria um nome que se adequasse ao seu estado de príncipe. Sim, porque nenhum príncipe que se preze gosta de ter Malaquias por nome.   Ma-la-qui-as! Horrível!
Os dias passavam e Malaquias não sabia o que fazer para conseguir o que tanto desejava. Quem o poderia ajudar? Quem poderia fazer alguma coisa para que isso acontecesse?
Os amigos desistiram de o convidar para fazer parte nas brincadeiras. E Malaquias acabou por ficar só, sem amigos e sem ter com quem falar. Passava os dias junto aos caniços. Mergulhava na lagoa de vez em quando para a pele humedecer e poder assim respirar e como alimentação, apenas algum insecto distraído que esvoaçasse junto dele.
Junto à lagoa havia um jardim com canteiros repletos das mais variadas flores. Todas as tardes se enchia de gente que aproveitava os bancos de madeira para descansar. Alguns liam o jornal. As crianças corriam felizes entre os canteiros.
- Vou ao jardim. – Pensou Malaquias – Lá, encontrarei uma princesa que me queira beijar.
    Corajoso, saltitou até ao jardim. Espreitou entre um canteiro de amores-perfeitos. No outro lado do canteiro estava um grupo de jovens que conversava animadamente. Entre eles estava uma menina de vestido cor-de-rosa e cabelo loiro preso por um laçarote.
- É uma princesa! – Pensou – Só pode ser uma princesa porque está vestida de cor -de -rosa e é muito bonita! Finalmente, vou ser um príncipe!
E saltou com alegria para o meio dos jovens. Estes, ao verem o sapo Malaquias, fugiram assustados.
- Fujam! É um sapo, um sapo feio! Fujam!
- A menina fugiu de mim e não me beijou….não gostou de mim…- pensou Malaquias muito triste.
E voltou para a lagoa. Os amigos afastaram-se assim que o viram chegar.
- Vamos embora manos para aquela ponta da lagoa… - disse um – o Malaquias vem aí e por certo vem aborrecido como sempre.
Malaquias notava que os amigos se afastavam dele e começava a ficar triste com essa situação. Gostaria que os amigos percebessem o seu sonho.
Entretanto os sapos e sapinhos continuavam a divertir-se na Lagoa. Saltitavam sobre os nenúfares e jogavam o “engole insectos”, um jogo que consistia em ver qual dos sapos apanhava mais insectos. Riam-se muito com o jogo.

A rã Rosélia, que tinha sido mamã há pouco tempo, mergulhava na água para olhar pelos girinos acabados de nascer. Todos os sapos a cumprimentavam dando-lhe os parabéns por ter sido mamã. E ofereciam-se para a ajudar a cuidar dos bebés.
Na rua a seguir ao jardim morava uma feiticeira. As pessoas consultavam-na pelos mais variados problemas nas suas vidas. Malaquias pensou:
- Na história que a mãe me contava, foi uma feiticeira que transformou o príncipe em sapo. As feiticeiras têm poções mágicas. Ela vai transformar-me em príncipe.
Sempre a saltitar atravessou o jardim obrigando as pessoas a fugirem assustadas. A feiticeira tinha a porta de casa aberta. Malaquias entrou cheio de esperança. Mais tarde sairia como um belo príncipe.
Lá dentro estava muito escuro. A sala estava apenas iluminada pela luz de duas velas enormes junto à parede. A feiticeira cozinhava algo que estava ao lume.
- Pozinhos de pirlinpimpim… baba de camelo… picos de ouriço…mexe,mexe,mexe…- Gritava a feiticeira enquanto mexia o caldeirão com uma grande colher de pau.
Ao ver o sapo à entrada da porta de olhos esbugalhados para ela, perguntou:
- Quem és tu?
- Sou…sou o sapo Malaquias.
- Tens consulta marcada?
- Consulta…?....N…não.
- O assunto que te trouxe à minha casa é muito urgente?
Malaquias pensou se seria, realmente, urgente. Agora que estava tão perto de se tornar num príncipe faltava-lhe a coragem. Ao ver aquele fumo escuro a sair do caldeirão, alastrando pelo tecto da casa, começou a ficar amedrontado. Mas era urgente. Era urgente porque se a feiticeira o transformasse em príncipe, todos os sapos da Lagoa Azul quereriam brincar com ele novamente.
- Sim…é urgente.
- Então qual é o teu problema…
- Feiticeira, vim ter consigo porque há muito tempo que tenho um grande desejo…e penso que só a senhora feiticeira o poderá realizar… Venho pedir-lhe para me transformar num príncipe.
A feiticeira olhou admirada para Malaquias. O sapo estava doidinho.
- Queres que eu te transforme num príncipe!? Achas que eu tenho esse poder?
- Sim. Foi uma feiticeira que transformou um príncipe num sapo…Portanto, poderá transformar-me num príncipe. Talvez com a poção mágica que tem ao lume.
A feiticeira soltou uma gargalhada enquanto dizia:
- Poção mágica!? Estás enganado! Estou a fazer uma pomada para untar as minhas costas. Sabes, ando cheia de dores e não consigo dormir.
Malaquias teve vontade de chorar. Aquela feiticeira não tinha poções mágicas. E dos seus olhitos vidrados saíram umas lagrimazitas. Nunca seria um príncipe e, assim, os sapos da Lagoa Azul nunca mais olhariam para ele.
- Eu sou feiticeira, porque me deram esse nome, mas não tenho poderes sobrenaturais. Apenas faço pomadas e xaropes para alívio de certas dores. – Ao ver que o sapo Malaquias continuava a chorar, acrescentou – Mas diz-me o que te apoquenta. Talvez eu te possa ajudar.
Malaquias contou tudo tintim por tintim: a história que a mãe lhe contava e como desejou a partir dessa altura ser um príncipe. Disse-lhe que aquele desejo era tão grande que deixara de conviver com os outros sapos da lagoa e que, por isso mesmo, sentia-se agora ainda mais triste, porque estava a ser posto de parte pelos amigos.
- Com os amigos brincamos e sonhamos. Aos amigos podemos confiar os nossos segredos mais íntimos… Sem eles estamos isolados de tudo. É muito importante termos amigos na nossa vida. – Disse a feiticeira.
- Mas os sapos são feios…!
- A beleza está no que somos, nas atitudes que tomamos e não na nossa aparência. Tenho a certeza que tu és um sapo com um bom coração e, portanto, és um sapo bonito.
- Mas se eu fosse príncipe…como o da história…
- Sabes, não importa o aspecto mas aquilo que somos realmente. Podes ser feio mas se fores bondoso todos gastarão de ti. Não julgues que os príncipes são todos belos como nos livros de histórias. Há príncipes muito feios e alguns, até, feios de rosto e de coração…
Malaquias ficou a pensar naquilo que a feiticeira dissera. Por fim, acrescentou:
- Se eu fosse príncipe não poderia viver na Lagoa Azul…e teria muitas saudades dos meus amigos…
- Tenho a certeza que todos eles são bonitos porque gostam muito de ti e gostam de brincar contigo.
- Tens razão! A amizade é muito importante…Acho que não aguentaria viver longe de todos os meus amigos… Vou para a Lagoa Azul!
- Espera um pouco. Não tenho pozinhos de perlimpimpim para te trans- formar em príncipe, mas posso fazer com que fiques mais bonito de aparência. Com um chapéu, uma gravata e uma casaca coloridas e uma bengala doirada ficarás outro. Os teus amigos vão gostar de te ver.
Malaquias gostou da ideia.
Em pouco tempo a feiticeira vestiu-o a rigor.

Sorriu de contentamento ao mirar-se no espelho que estava encostado à parede da sala. Na verdade estava muito mais esbelto. Os amigos iriam ficar surpreendidos com a sua transformação. Sentia-se o sapo mais feliz e mais vaidoso do mundo.
Na Lagoa Azul as brincadeiras continuavam. Os sapos brincavam alegremente. Malaquias ficou a olhar, para eles, enternecido.
Fez-se silêncio na Lagoa. Todos os sapos e sapinhos olharam surpreendidos para Malaquias que estava todo sorridente junto à margem e vestido como se fosse para uma festa. Pouco a pouco foram-se aproximando com olhares de espanto.
- Malaquias, que te aconteceu?
-Estás tão bonito!
Malaquias contou a sua história.
Os sapos e sapinhos ficaram contentíssimos. Ainda bem que a feiticeira soubera ajudar o Malaquias.
- Vamos jogar ao “engole insectos”? – perguntou Malaquias, entusiasmado.
Malaquias já não queria ser príncipe. Era o mesmo Malaquias de antigamente.
- Vamos brincar. Mas primeiro vou despir a minha fatiota nova para não a estragar.
Os girinos exclamaram em coro:
- O tio Malaquias parece um príncipe!
Sim, era isso mesmo. Malaquias sentia-se um verdadeiro príncipe por ter novamente os amigos para partilhar brincadeiras!

                                                                            Eugénia Edviges



Um grande XI-    

Sem comentários:

Enviar um comentário