quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Concerto dos Pombos

A Praça estava cheia de gente. Os pombos depenicavam aqui e ali os bocadinhos de bolo que as crianças atiravam para o chão.
- Manos, vamos aproveitar, que hoje há fartura…
O Homem-Estátua, coberto de tecido doirado, de cara enfarinhada e com uma coroa no alto da cabeça, pedia:
- Venham para cima dos meus ombros… Hoje, ninguém pára para me dar uma moeda…
Muitas vezes, quando as pessoas passavam apressadas, não reparando no Homem-Estátua, os pombos aninhavam-se na sua cabeça ou nos seus ombros. Era então que todos paravam a olhar e diziam a sorrir:
- Vejam! Olhem os pombos…tão engraçados!
Encantados, os turistas tiravam fotografias o mais rápido que lhes era possível, antes de os pombos levantarem voo e abandonarem o Homem-Estátua.
E deixavam uma moedinha.
- Não. Hoje não podemos ajudar-te… - respondeu um dos pombos mais velhos. – Temos de aproveitar estes bocadinhos de bolo que está uma maravilha.

E continuaram a depenicar os salpicos de bolo que as crianças atiravam para o chão.
A velhota que vendia saquinhos de milho, também pediu com uma voz muito triste:
- Queridos pombinhos não comam tanto bolo… Assim ninguém me compra os saquinhos de milho…
- Gostamos muito de milho…mas hoje a ementa é diferente. Preferimos o bolinho…
E a velhota ficou a pensar no dinheiro que não ganhará naquele domingo primaveril.
- Paciência…-sussurrou – hoje não jantarei…

À porta da igreja sentou-se o pedinte do costume. Enroscou-se ao canto da grande porta de madeira colocando as mãos debaixo do casaco castanho, muito velho e desbotado.
- Manos, - disse um dos pombos – o Isaías hoje tem o relógio avariado. A hora da missa já passou há muito tempo…
- Ele nem relógio tem… - respondeu um dos pombos mais novos, bicando um pedaço de bolo, que ficara entalado entre duas pedras da calçada.
O sacristão abriu a grande porta da igreja de par em par. E as pessoas começaram a entrar aos grupos. Que se passará? Missa a meio da tarde?
- Anda filha… - pediu uma senhora de casaco aos quadrados para uma criança que espalhava bocadinhos de queque pelo chão – Vai começar o Concerto.
Os pombos levantaram as cabecinhas quase todos ao mesmo tempo. Concerto!?
- Pronto. – Resignou-se o Homem-Estátua – Agora é que acabou mesmo. Irão todos para a igreja… já não irei receber mais nenhuma moedinha…
Era muito estranho o que se estava a passar. Toda a gente se dirigiu à igreja para o tal “co
ncerto”. Se era um concerto é porque alguma coisa estava a precisar de uma reparação.
- Talvez os bancos estejam partidos…- disse um dos pombos - Ou então foram pintar as paredes…Sempre ouvi dizer que a igreja precisa de uma pintura…
O mistério era grande.
Foi então que se ouviu um som que se espalhou por todo a Praça. Um som muito bonito e melodioso.
- É música… - disse o pombo que era considerado o mais inteligente do grupo - Não é nenhuma reparação da igreja, é música interpretada por uma orquestra.
- Uma quê!? – Exclamaram alguns.
- Uma orquestra. – Continuou – É um grupo de pessoas a tocar instrumentos, resultando neste som maravilhoso.
- Vamos espreitar…vamos… - pediram os pombos mais jovens – Vamos ver a “orbrestra”.
- Orquestra. – Esclareceram em coro os pombos mais velhos.
Juntaram-se todos na Praça. Voaram em direcção às aberturas abaixo do telhado. Aquelas pequenas janelas em arco, sem vitrais, eram o sítio ideal para apreciarem a tal orquestra.

Rapidamente, os parapeitos das janelas encheram-se de pombos que agitavam as asas para se encostarem uns aos outros e assim haver mais espaço para todos. Arrulhavam descontentes quando algum deles queria aproximar-se demasiado para ver melhor.
A igreja estava repleta: nos bancos corridos não havia nenhum lugar vago e estavam pessoas sentadas no chão, quer ao lado do altar quer no chão das naves colaterais, cujos altares estavam iluminados por imensas velas. A orquestra, frente ao altar principal, executava os últimos trechos da primeira melodia. O maestro ergueu a batuta e os últimos acordes soaram como uma tempestade.
As pessoas aplaudiram entusiasticamente. O som dos aplausos ecoou por toda a igreja. Os músicos levantaram-se. Sorriam de satisfação. O maestro voltou-se para o público e fez uma vénia para agradecer.
O concerto continuou e os pombos ouviam com muita emoção. o interior da igreja, lá do alto, estava esplendoroso. A luz das velas espalhava raios brilhantes sobre a talha dourada do altar e sobre as imagens dos santos.
Inesperadamente o maestro curvou-se levando a mão esquerda ao rosto. Fazia um esforço para endireitar o corpo mas em vão. Deixou cair a mão que segurava a batuta. E sem aguentar mais começou a espirrar, a espirrar, a espirrar. Notava-se que não conseguia suster aqueles malvados espirros. Os músicos deixaram de tocar e olhavam admirados para o maestro. Não sabiam que fazer. Os espirros continuavam. A assistência entreolhava-se sem saber se haviam de aplaudir ou não.
- Que azar… - disse um dos pombos mais velhos. Coitado do maestro. Que situação tão embaraçosa.
- As pessoas vão ficar desiludidas. – Disse outro pombo com tristeza.
Os espirros pareciam nunca mais acabar e o seu eco repercutia-se pela igreja.
- Manos - disse o pombo mais velho – temos de fazer alguma coisa.
- Fazer alguma coisa!? Por acaso sabes tocar algum instrumento? – Perguntou uma pomba sorrindo de troça.
- Já sei! – Gritou do seu poiso um dos pombos mais jovens que aprendera a voar há pouco tempo.
- O quê? Diz depressa.
- Será um final espetacular se levantarmos voo todos ao mesmo tempo e sobrevoarmos a igreja.
Todos gostaram da ideia.
- Vamos a isso – disse o pombo mais velho – Eu dou o sinal de partida. Atenção!...Um… dois… três.
Todos os pombos levantaram voo e sobrevoaram a igreja com elegância. As pessoas olhavam extasiadas aquela nuvem esvoaçante sobre as suas cabeças. Nunca tinham assistido a um concerto tão maravilhoso!
O maestro tinha deixado de espirrar e sem conseguir pronunciar qualquer palavra olhava boquiaberto para o que estava a acontecer. Com um gesto mandou os músicos e o público levantarem-se e todos aplaudiram fortemente enquanto os pombos davam a segunda volta à igreja. Por fim saíram pelas janelas pequeninas em direção à praça.
Todos saíram da igreja a correr.
- Será que há fogo? – Murmurou a velhota dos saquinhos de milho vendo toda aquela gente correr para si.
- Quero um saco de milho…

- Desculpe, eu cheguei primeiro…
- Eu quero dois sacos…
-Não leve todos que eu também quero.
A velhota não cabia em si de contente. Não compreendia o que se estava a passar, mas de uma coisa estava certa: iria ter um magnífico jantar.
E foi assim que, naquele fim de tarde, os pombos da Praça ficaram com dores de barriga por terem comido tanto milho.

                                                                 Eugénia Edviges

Um grande XI-    

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