terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Senhor Pires Procura Noiva - António Torrado






Texto: António Torrado
Ilustração: Cristina Malaquias
Do Livro: 100 Histórias à Janela



    O senhor Pires sente-se muito só. Em tempos lá para trás teve par, conchego, companhia a condizer com o seu estilo, mas houve uma desgraça e a companheira de muitos anos partiu. Isto é: partiu-se no lava-loiça da cozinha.
    Eu explico melhor. A companheira do senhor Pires tinha um rebordo de entrançado de flores e era leve, levíssima, fina, finíssima, feita de porcelana vidrada, elegantemente pintada por mão de artista. Chávena como ela não haveria muitas.
- Escorregou-me... - desculpava-se a desajeitada mão que a lavava à torneira.
    Pobre chávena, desfeita em cacos!
    O senhor Pires, apesar de ser do mesmo fabrico e da mesma idade, gostava de a tratar por menina Chávena e trazia-a sempre ao colo. Perdê-la foi, por isso, para ele, um grande desgosto.
Sozinho, sem par a condizer, o senhor Pires vivia a sua inutilidade num canto sombrio do armário da cozinha.
Até que decidiu pôr um anúncio:

                                                   PROCURA-SE
             Chávena de sólida formação para convívio e possível matrimónio.
                                                    Assunto sério.

    Se tivesse um feitio mais afoito, mais descansado, punha-se à janela, a apregoar: "Quem quer, quem quer casar comigo, que sou gentil e bom amigo?" Mas o senhor Pires não conhecia a história da Carochinha.
    Apresentou-se primeiro uma caneca dessas almoçadeiras, de asa robusta, muito vistosa, muito garrida, muito risonha.
- Desculpa, mas não és o meu género - disse o senhor Pires. - Se fosses mais pequena...
    A seguir veio uma tigela de sopa.
Gabava-se de ser de sólida formação e de não rachar nem por nada.
- És grande de mais, desculpa - disse o senhor Pires. - Podias desiquilibrar-me e quem se partia era eu.
    Apresentou-se depois uma discreta chávena de chá, já um pouco esbeiçada do muito uso.
    O senhor Pires também não a aprovou.
- Desculpa, mas acho que não temos os mesmos objectivos...E quando o casal não tem os mesmos objectivos, a ligação não resulta.
    Até que lhe apareceu a chávenaque lhe convinha.  Condiziam na leveza da porcelana, nos desenhos, em tudo...
    Ela também estava sozinha. O respectivo pires partira-se numas mudanças. Azares de loiça fina!
- Somos do mesmo serviço -encantou-se o senhor Pires. - Temos uma vida a dois à nossa frente.
    E, de facto, durante anos e anos serviram muitos cafezinhos.





Um grande XI-    

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